AS EXTENSÕES DE CADA UM DE NÓS
Numa tarde ensolarada do final dos anos 50, no meu pequeno mundo de criança lá no interior de São Paulo, arrisquei responder sobre o que iria ser quando crescer: “Médico e Ponta Direita da Associação (Associação Atlética Botucatuense)”, referindo-me ao clube para o qual torcia e onde assisti meus primeiros jogos de futebol com papai.
Ao decidir minha escolha pelo curso da faculdade, no começo da década de 70, ainda estava mentalmente influenciado pelas tradicionais carreiras, nas quais já haviam apostado os pais e os irmãos mais velhos de amigos de infância: Engenharia Civil, Mecânica e Elétrica, Medicina, Agronomia, Biologia, Veterinária, Psicologia, Arquitetura, Letras e Direito. Mas, tudo o que pensei em ser na vida me levou a embarcar na área de Comunicação.
Dalí optei pela Publicidade, trabalhando em criação e planejamento de campanhas. Entretanto, sempre aliei minha vontade de viver como publicitário, ao papel de jornalista, às vezes de fotojornalista, observando, clicando, escrevendo e falando sobre tudo. Dos anos 90 pra cá, acrescentei ás minhas experiências, o dia-a-dia de professor universitário de Publicidade e de Propaganda e Marketing, acompanhando bem de perto as transformações – especialmente tecnológicas – deste fervilhante mercado, das agências, editoras de jornais e revistas, produtoras, emissoras de rádio e de TV, mídias e veículos de comunicação.
Se fosse escolher hoje iria apostar de novo na Comunicação. E enxergar o meio como sendo a mensagem, cravando a famosa afirmação de Marshall McLuhan, no seu clássico livro “Os meios de comunicação como extensões do homem”. Mas, aproveito para levantar uma questão. As profissões ou ocupações não seriam as extensões de cada um de nós?
Confesso que por várias vezes pensei em exercer outra atividade, na qual trago habilidades. Apostaria na de cantor. “Foi nos bailes da vida. Ou num bar em troca de pão. Que muita gente boa pôs o pé na profissão. De tocar um instrumento e de cantar. Não importando se quem pagou quis ouvir. Foi assim”. Como descrevem Fernando Brant e Milton Nascimento, em “Bailes da vida”, de 1981.
Do mesmo modo que a lida do artista, outras profissões são retratadas nos ventres das canções. Noel Rosa e Vadico trazem o ambiente do garçom, em “Conversa de Botequim” (1935). Roberto Carlos destaca a importante jornada do “Caminhoneiro” (Erasmo Carlos, Roberto Carlos, John Hartford, 1984). “Todo dia quando eu pego a estrada. Quase sempre é madrugada… No volante eu penso nela. Já pintei, no para choque, um coração e o nome dela. Já rodei o meu país inteiro. E como bom caminhoneiro. Peguei chuva e cerração”.
Profissões que serão sempre indispensáveis, logicamente são lembradas. “Em setembro. Se Vênus me ajudar. Virá alguém. Eu sou de virgem. E só de imaginar. Me dá vertigem. Minha pedra é ametista. Minha cor, o amarelo. Mas sou sincero. Necessito ir urgente ao dentista” (“Bijouterias”, tema da novela O Astro, Aldir Blanc e João Bosco, 1977).
E também estão presentes os artistas profissionais cujos projetos transformam paisagens. “Céu de Brasília, traço do arquiteto. Gosto tanto dela assim” (Djavan, Caetano Velos, “Linha do Equador”, 1993). Não faltando as mãos daqueles que executam esses projetos. “Pedro pedreiro penseiro, esperando o trem. Manhã, parece, carece de esperar também” (Pedro pedreiro, Chico Buarque, 1965). Enquanto houver carros, existirão um bando de magos que conversam com eles: “mandei meu Cadilac pro mecânico outro dia. Pois há muito tempo um conserto ele pedia”. (“Calhambeque”, Road Hog, John Loudermilk, Gwen Loudermilk, Erasmo Carlos, 1964).
Que tal envolver a vida de um casal que possui atividades quase incompatíveis? “O nosso amor é tão bom. O horário é que nunca combina. Eu sou funcionário. Ela é dançarina. Quando pego o ponto. Ela termina. Ou: quando abro o guichê. É quando ela abaixa a cortina. Eu sou funcionário. Ela é dançarina. Abro o meu armário. Salta serpentina”, como acontece em “Ela é dançarina”, de Chico Buarque, gravada em 1982.
O certo é que: enquanto houver casamentos, haverá profissionais para oficializa-los. Ou não? “Senhor Juiz, pare agora. Senhor Juiz, esse casamento será pra mim todo meu tormento. Não faça isso, peço por favor. Pois minha alegria vive desse amor. Por favor, pare agora. Senhor Juiz, pare agora”. O não case foi pedido por Wanderléa, em 1966 na canção e versão “Pare o casamento” (Stop the Wedding, Kenny Young, Arthur Resnik, Luiz Carlos da Cunha Santos).
Se fixarmos os pensamentos num futuro próximo, podemos alcançar as novas profissões que virão. E conhecer que tipos de habilidades, formações e competências precisaremos ter para sermos candidatos a ocupar alguns de seus cargos e funções. Estudos como o do relatório do Center For The Future of Work, da Cognizant Technology Solutions, sediada em New Jersey, EUA, indicam que pelo binóculo do tempo vão aparecer: 1- Oficial de Diversidade Genética. 2- Controlador de Estradas. 3- Curador de Memórias Pessoais. 4- Gerente de Equipe Humanos-Máquinas 5- Analista de Cybercidade. 6. Talker/Walker (profissional autônomo) para idosos. Veja, nas respostas abaixo se você gostaria de se candidatar para alguma delas.
RESPOSTAS: 1- Graduação avançada em Biologia ou Genômica. 2. Pós-graduação em IA. 3. Nível excepcional de Inteligência Emocional, Graduação em Comunicação com Especialização em Narração. 4. Formação em Psicologia ou Neurociência e em Ciência da Computação. Pós-graduação em RH e em Machine Learn. 5. Qualificação em Engenharia Digital. Especialização em Impressão 3D e em Análise de Dados. 6. Domínio total das ferramentas e plataformas digitais. Capacidade máxima em Prestar Atenção e Conversar
NOTA 1 – Esta crônica escrita complementa o podcast do Episódio 72, do Canal Semônica, criação de Nando Cury e produção do podcastmais.com.br
NOTA 2 – Pesquisa histórica e musical, texto, voz por Nando Cury
NOTA 3 – Canções de referência ao tema:
Pedro, pedreiro (Chico Buarque)
Nos bailes da vida (Milton Nascimento e Fernando Brant)
O Calhambeque (Road Hog, de John Loudermilk, Gwen Loudermilk, versão Erasmo Carlos)
Linha do Equador (Djavan, Caetano Veloso)
Caminhoneiro (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Bijouterias (Aldir Blanc e João Bosco)
Conversa de Botequim (Vadico, Noel Rosa)
Ela é dançarina (Chico Buarque)
Pare o casamento (Stop the Wedding, Kenny Young, Arthur Resnik, Luiz Carlos da Cunha Santos)
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