
LADEIRA NÃO TEM BEIRA, MAS VERSO
Ladeira não tem eira, não tem beira. E não é recomendada pra feira livre. É entendida como uma inclinação mais ou menos acentuada de terreno, ou rua mais ou menos íngreme. A palavra íngreme, tanto pela sua pronúncia, como pela grafia, representa algo exato ligado ao esforço, bem no sentido que uma ladeira submete os pedestres que nela se aventuram alpinisticamente. Quer uma coisa mais íngreme ainda? Que tal enfrentar um ladeirame? O que é isto? É uma sequência de ladeiras.
Quando estamos andando numa cidade que tem morro ou montanha por perto, é só esperar um pouco e de repente aparece uma ladeira para subirmos e descermos. Em Botucatu, cidade serrana, há várias ladeiras. A mais impressionante fica na Rua Henry Ford, esquina com a Avenida Marechal Floriano Peixoto. Há também aquela, lateral à praça, que sobe ao lado da Igreja de Lourdes.
Quero acrescentar que, em São Paulo, moro numa rua que tem duas belas e pronunciadas ladeiras. Uma delas para ser galgada de carro é preciso embalar pra poder subir. Quem não se lembra de inspetores de trânsito mais tiranos que, no exame para tirar a CNH submetem os seus candidatos a motoristas ao dificílimo teste da ladeira. Sob pressão de todos os lados, mais o efeito da gravidade, não titubear no controle dos pedais e não deixar o veículo descer alguns metros, só por milagre.
Por ser temida, enjoada, venerada, histórica, representar uma rua diferente das outras, a ladeira entra como cenário nos versos das canções. Vamos lembrar de alguns exemplos.
Em 1968, no álbum Alegria, Alegria II, e pra alegria geral dos seus fãs, Wilson Simonal lançou seu maior hit musical “Sá Marina”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar. Tão melodiosa, Sá Marina recebeu até uma versão de Sérgio Mendes, cantada por Stevie Wonder (Pretty World). “Descendo a rua da ladeira. Só quem viu que pode contar. Cheirando à flor de laranjeira. Sá Marina vem pra dançar. De saia branca costumeira. Gira ao Sol que parou pra olhar. Com seu jeitinho tão faceira. Fez o povo inteiro cantar.”
No compacto de 1971, o cantor João Só retratou uma musa inquieta que esperava alguém em “Menina da ladeira”. Uma música de letra fácil pra cantar, que ganhou arranjo sofisticado e foi seu primeiro e grande sucesso. “Menina que mora na ladeira. E desce a ladeira sem parar. Debaixo do pé de laranjeira. Se senta pra poder descansar.”
Tem uma ladeira localizada no bairro Dois de Julho em Salvador, BA. Provavelmente construída no século 17 e que é importante via da cidade. Chama-se Ladeira da Preguiça e foi homenageada por Gilberto Gil. Pra rimar com este nome, Gil resgata uma expressão criada pelo poeta italiano Giovanni Boccaccio, do séc. 14, que ironizava uma terra tão maravilhosa onde se podia amarrar cachorros com um certo alimento que eles adoram devorar. A expressão também significa facilitar demais para que outros possam se apoderar ilicitamente de dinheiro ou bens. A composição “Ladeira da Preguiça” de Gil, também de 1971, ganha sua melhor interpretação com Elis Regina.” Essa ladeira. Que ladeira é essa? Essa é a ladeira da preguiça. Ela é de hoje. Ela é desde quando. Se amarrava cachorro com linguiça.”
Do quarto álbum solo de Moraes Moreira, lançado em 1979, uma canção se destaca. É “Lá vem o Brasil descendo a ladeira” dele e de Pepeu Gomes. Foi inspirada numa bela mulher, que o cantor flagrou descendo a ladeira carregando uma lata d´água na cabeça. “Quem desce do morro, não morre no asfalto. Lá vem o Brasil descendo a ladeira. Na bola, no samba, na sola, no salto. Lá vem o Brasil descendo a ladeira. Da sua escola é passista primeira. Lá vem o Brasil descendo a ladeira. No equilíbrio da lata não é brincadeira. Lá vem o Brasil descendo a ladeira.”
Num largo do centro de São Paulo, próximo ao Ribeirão Anhangabaú e inaugurado há 200 anos atrás, havia bicas de água e um chafariz. O lugar foi considerado a porta de entrada do município e acolhia os tropeiros. Hoje, tombado, abriga o Obelisco de Piques, antigo monumento de 1814, além de uma sobrevivente centenária figueira-brava. Logo abaixo começa a “Ladeira da Memória”, que em 1982 ganhou uma canção homônima composta por Zé Carlos Ribeiro e cantada pelo Grupo Rumo. “Olha as pessoas descendo a Ladeira da Memória até o Vale do Anhangabaú. Quanta gente! Vagando pelas ruas sem profissão, namorando as vitrines da cidade”.
Fisicamente a ladeira não tem beira, nem eira, mas tem dois sentidos. Ao ser escolhida como palco de cenário poético, talvez por uma questão de facilitar o acesso aos personagens, a maioria dos poetas prefere coloca-los numa posição mais confortável em relação à inclinação ladeirística. Ou seja na descida, como vimos nas canções anteriores. Mas a ladeira permite ainda o olhar no sentido oposto. Foi esta, em 2003, a abordagem escolhida pelo cantor Vander Lee para compor a canção “Subindo a ladeira”: “Quando te vejo subindo a ladeira. Ponho minha roupa de domingo e toco violão. Lanço meu sorriso de Marcos Palmeira. Mostro meu corpinho fabricado pela malhação, yeah”.
NOTA 1- Esta crônica escrita complementa o podcast do episódio 91 do canal Semônica, criação de Nando Cury e produção do podcastmais.com.br
NOTA 2 – Canções que fazem referência ao tema:
- Ladeira da praça (Moraes Moreira / Luiz Galvão), com Novos Baianos
- Descida na Ladeira (Alceu Valença), com Alceu Valença
- Sá Marina (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar) com Wilson Simonal
- Menina da Ladeira (Joao Evangelista De Fortes), com João Só
- Ladeira da Preguiça (Gilberto Gil), com Elis Regina
- Lá vem o Brasil descendo a ladeira (Moraes Moreira/Pepeu Gomes) com Moraes Moreira
- Ladeira da Memória (Zé Carlos Ribeiro), com Grupo Rumo
- Subindo a ladeira (Vander Lee), com Vander Lee
Compartilhe: