
ABELHAS, AS RAINHAS DAS MATAS
Em 1983, os primos Paulo Bertini e André Donato me fizeram um ótimo convite: participar de um curso de apicultura e conhecer o Incrível Mundo das Abelhas. Foi paixão incondicional. Depois do curso, vieram livros, compramos juntos a indumentária (máscara, chapéu, macacão, luvas e botas), apetrechos (fumigador, espanador…) e algumas caixas-colmeia, para iniciar um projeto experimental de apicultura lá no sítio do tio Hernâni em Botucatu.
A abelha é um inseto milenar, que deixou vestígios em todos os lugares da história da humanidade. Descobertas de arqueólogos apontam resquícios de mel e cera em fósseis, potes de barro, ânforas, papiros (desenhos), documentos… Cientes de sua valiosa contribuição pra natureza, os povos antigos, artistas, escritores, compositores a valorizaram, registraram sua presença em seus contos, lendas, danças, telas, canções, vestimentas, moedas… O mel como um alimento vital aparece em passagens de muitos personagens históricos.
As abelhas formam uma sociedade muito bem estruturada. Vamos considerar que cada colônia de abelhas é composta por milhares de operárias, 1 rainha e algumas centenas de zangões. A rainha é a responsável pela organização interna. Vive em média 5 anos, tem o dobro do tamanho das abelhas normais, é a única que possui órgãos reprodutores e põe ovos. Os machos zangões disputam a rainha para fecundá-la, sobrevivendo cerca de 80 dias ou até seus voos nupciais. As operárias, pelas condições do nosso clima, dispõem de apenas 45 dias de vida para exercerem múltiplas funções. Uma das mais importantes é polinizar e fecundar as flores, multiplicando os frutos.
De modo complementar, buscam e transportam matérias primas da natureza – como o pólen, o néctar e a água – para a fabricação dos produtos na colônia. Produzem a cera, o mel, a própolis e a geleia real que são utilizados na culinária e na farmacoterapia. Como verdadeiras arquitetas usam a cera para construir os alvéolos, que servem de berços ondem chocam as larvas e os favos para depositar o mel. Fazem o papel de guardas para defender a rainha e de sentinelas para proteger a colmeia, contra os ataques de insetos e pássaros. Em dias frios, agrupam-se para provocar calor interno e abanam asas, como ventiladores, para arejar o ambiente no calor excessivo. Usam a própolis para calafetar possíveis frestas e orifícios da colmeia, vedando a entrada da água e do vento.
Vamos lembrar como alguns artistas nacionais reverenciaram este inseto tão incrível. No lindo álbum infantil A Arca de Noé, de 1980, coube a Vinicius de Morais e parceiros criar músicas para o projeto. Uma delas foi “As abelhas”, de Vinicius e do pianista argentino Luis Enriquez Bacalov: “A abelha-mestra e as abelhinhas. Estão todas prontinhas para ir para a festa. Num zune que zune lá vão pro jardim. Brincar com a cravina, valsar com o jasmim. Da rosa pro cravo. Do cravo pra rosa… Venham ver como dão mel as abelhas do céu.”
Caetano Veloso e Wally Salomão descrevem a importância da abelha rainha como fonte de criação e ressaltam seu matriarcado. A música “Mel” (1979), ficou muito conhecida na voz de Maria Bethânia, no seu LP homônimo. “Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do seu prazer. Sim, e de tua glória. Pois se é noite de completa escuridão. Provo do favo de teu mel. Cavo a direita claridade do céu. E agarro o sol com a mão.”
“Acabou chorare”, de Luis Galvão e Moraes Moreira (1972), é um clássico quase cantiga de ninar dos Novos Baianos, onde a abelha atua como personagem principal: “Acabou chorare, ficou tudo lindo. De manhã cedinho… Talvez pelo buraquinho. Invadiu-me a casa, me acordou na cama. Tomou o meu coração e sentou na minha mão. Abelha, abelhinha. Acabou chorare, faz zunzum pra eu ver. Faz zunzum pra mim.”
Beto Guedes inclui a abelha na adoração às coisas mais puras e primitivas da natureza, destacando-a na brilhante canção “Amor de Índio” (1978, Ronaldo Bastos e Beto Guedes). “Tudo que move é sagrado. E remove as montanhas com todo o cuidado, meu amor… A abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou.”
Nos trópicos, onde estamos, centenas de milhares de espécies de plantas conhecidas dependem da ajuda de outro ser vivo para sua reprodução. Delicadas, espalhafatosas, zunizentas, como se alimentam exclusivamente de néctar e pólen, as abelhas são as únicas especialistas e as mais eficientes polinizadoras do mundo. A reprodução das plantas, em especial dos seus frutos, garante a sobrevivência de outros animais, como aves e mamíferos, que ao comê-los dispersam sementes. E assim se fecha um grande ciclo da vida.
Mas, por tudo o que representam e oferecem, as abelhas não merecem ser ameaçadas e dizimadas pelos já condenados defensivos agrícolas, pela poluição e alarmantes devastações de terra. O agro brasileiro está crescendo. Isto ajuda a economia do país. Que tal um projeto de lei que obrigue os produtores agrícolas a investir na preservação da vida das abelhas como legítimas associadas aos seus negócios?
Nota 1 – Esta crônica escrita complementa o podcast do episódio 63 do Canal Semônica, criação de Nando Cury e produção do podcastmais.com.br
Nota 2 – Pesquisa histórica e musical, texto, locução, canto e violão em “Acabou chorare” (Luiz Galvão e Moraes Moreira) no podcast por Nando Cury.
Nota 3 – Participações especiais no podcast: Mônica Parmigiani (voz e ukulele) em “As Abelhas” (Vinicius de Morais e Luis Enriquez Bacalov); Toni Liutk (voz e violão) em “Amor de Índio” (Ronaldo Bastos e Beto Guedes).
Nota 4 – Outras músicas citadas no podcast: “Mel ( Caetano Veloso e Waly Salomão) e “Lírios e abelhas” (Miro Saldanha)
Nota 5 – Uma obra clássica “Flight of the Bumblebee” (O Voo das Abelhas), composta entre 1899 e 1900 pelo russo Nikolai Rimsky-Korsakov, foi muito usada em filmes e desenhos. Sua melodia, que utiliza violinos em passo rápido, está associada ao voo ligeiro e frenético das abelhas. Dá até para imaginar as centenas de flores que elas visitaram durante a música (Fonte: Youtube).
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