ENTRE O HARD E O LIGHT?
Anos 70. Casa cheia para o almoço de domingo. Mamãe convidou meus tios e primos para sua famosa feijoada completa. Aquela feijoada com todas as peças do porco, compradas por papai em loja especializada do Brás. Pururucas fizeram sucesso como petiscos, complementando as caipirinhas especiais preparadas por papai.
Após o almoço, a cachorrinha Lady bocejou, prendendo firme, com sua pata, um osso de costela no tapete da sala. A televisão da sala da casa de meus pais estava ligada na Buzina do Chacrinha.
BG: Som da Buzina do Velho Guerreiro. O apresentador ofereceu bacalhau para a plateia.
– Alô, alô, quem vai querer bacalhau.
Era uma das ações de merchandising combinadas com o patrocinador do programa: a rede carioca de Supermercados Casas da Banha.
Tempos de fartura na mesa e dos desafios gastronômicos. Nos outdoors de São Paulo, o Grupo Sérgio, que tinha como slogan “lugar de gente feliz”, anunciava seu rodízio de pizza, oferecendo: “coma quanto quiser e pague apenas meia pizza”.
Usada há décadas nas cozinhas, pelas nossas queridas bisavós e avós, a banha de porco continuava lembrada naquela década. A partir de então, pesquisas científicas e propagandas nos convenceram que era um produto muito gorduroso, causava mal à nossa saúde.
E a banha foi gradativamente substituída pelos óleos vegetais de milho e soja. Mais adiante, pelos óleos de canola (extraído de colza, desconhecida planta canadense), do girassol e do coco. Através do processo de hidrogenação, o óleo foi transformado em gordura vegetal sólida e virou margarina: a substituta ideal da manteiga, que continha alto grau da temida gordura animal, como comprovavam certos estudos. O azeite de oliva, foi mudando até chegar na formulação extra virgem, com baixa acidez, a mais recomendada.
Recebemos indicações médicas para evitar a gordura da picanha, da linguiça, do cupim, da carne de cordeiro, do frango, de peixes… De repente os produtos apareceram nas suas versões light, com menos gordura e zero com nenhuma. Até a paçoca, o chocolate e o sorvete viraram light. O uso de ovos está liberado, desde que sejam botados por galinhas criadas livres e soltas, que são mais poedeiras e oferecem produtos mais nutritivos.
Pelas minhas contas, estou há 38 anos comendo pão integral no café da manhã. Também passei a consumir leite desnatado e outros produtos light como manteiga, requeijão e queijos. Em nosso cardápio caseiro, reduzimos o sal, diminuímos os condimentos, os açucarados. Fizemos uma lista de vetados, incluindo os caldos de galinha e de carne, refrigerantes, enlatados… Trocamos o açúcar refinado pelo cristal, e o cristal pelo demerara orgânico. Alfaces, verduras e legumes agora também somente orgânicos.
Estamos pensando, seriamente, em abolir a farinha branca. Bebemos muito pouco, apenas cervejas artesanais selecionadas. Visitas a fast foods onde é possível desfrutar de combos com sanduiches em promoções especiais … É claro que não fazem parte da nossa dieta.
Mas, dentro de um planejamento nutricional, que adotamos para conspirar a favor da nossa longevidade, ficamos muito apreensivos com recente pesquisa de alguns nutrólogos. Ao analisarem novamente a composição da banha, os especialistas reconhecem que esta velha conhecida ajuda a prevenir doenças cardiovasculares, aumentando o nível do colesterol bom e diminuindo o do colesterol ruim.
Em outro estudo resgatam os benefícios dos derivados do leite integral. Estacionados, atônitos e indefesos, na fronteira cruel entre o hard e o light, perguntamos: será que estamos voltando aos nossos antigos hábitos alimentares?
NOTA 1- Esta crônica escrita complementa o podcast do episódio número 13 do Canal Semônica, “Entre o hard e o light”, criação de Nando Cury e produção do podcastmais.com.br.
NOTA 2- Pesquisa histórica e musical, texto e voz no podcast por Nando Cury.
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