Homem trabahando no notebook
ZOOM NAS TELAS

Nós gastamos, ou dedicamos muito tempo de nossas vidas, olhando para telas. Começando por aquelas que refletem e moldam nossa imagem pessoal: os espelhos dos banheiros, quartos, carros. Quantas vezes nos dirigimos aos espelhos, em variadas missões de checkup visual. Para conferir vestígios:  “Será que ainda estou com cara de sono”? “Ainda sinais de caspa?”

Mulher coçando a cabeçaEm outras ocasiões, para localizar um cisco no olho. Para confirmar a combinação das roupas, fazer a barba, escovar os dentes, arrumar os cabelos, melhorar exercícios de fonoaudiologia e outras enfim. As telas refletivas são testemunhas de registros peculiares de ataques de vaidade ou de embelezamento. Como os casos de mulheres que, sem nenhuma timidez ou pudor, fazem as sobrancelhas, usando os espelhos dos pequenos estojos, dentro dos trens do Metrô.

Mulher passando batom no carroE de outras, motoristas, que sem se importunar com a presença ameaçadora do agente do trânsito, retocam demoradamente o batom nas paradas dos faróis. Isto vale também para os homens mais vaidosos e narcisistas, lógico. “Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais vaidoso que eu”

De fato, espelhos são aliados eficientes para espantar nossas dúvidas e ajudam a abrandar nossa ansiedade, quando nos preparamos para eventos importantes.

No entanto, nesta época em que estamos trabalhando em home office ou nos entretendo para passar o tempo, desviamos nossa atenção, de forma demasiada e quase que exclusiva, para outros tipos de telas: as telas virtuais. Ficamos, horas e horas hipnotizados pelas telonas de TV, assistindo séries, por exemplo. Tão imersos em seus enredos, que não percebemos que já acabou um episódio e que estamos no meio de outro.

De modo análogo, navegamos pelas telas do computador, laptop ou celular recebendo aulas de cursos, lecionando, fazendo vídeo chamadas, assistindo e participando de lives e reuniões virtuais. Como acontece com os participantes de programas de televisão, estamos ao vivo em algum cômodo de nossa residência, expondo a nossa aparência, hábitos e gostos pessoais.

Se somos telespectadores, podemos perceber e apontar detalhes: “Você viu aquela poltrona exótica na casa do apresentador x?”. “O comentarista z é apaixonado por arte moderna, tem um quadro da Tarsila na parede.” Já, no papel de promotores e convidados de aulas e lives, “damos – literalmente – a cara para bater”, abrindo nossas janelas pros outros participantes. E, além de acompanhar o tema ou o assunto, deixamos nossas imagens e nossos cenários “entrarem no jogo”. Vem junto um punhado de preocupações. Minha roupa está legal?  O ambiente não está muito claro? Tem algum objeto de cena fora do lugar?

Mulher gravando Estudiosos da Universidade de Stanford (Palo Alto, Califórnia, EUA) afirmam que a exposição excessiva às vídeo chamadas pode afetar a saúde mental e física. E chamam esse fenômeno de fadiga do zoom. Agora entendo porque a maioria dos meus ex alunos relutavam em deixar a câmera aberta enquanto assistiam minhas aulas. Passavam, realmente, por momentos de ansiedade, stress, baixa estima e falta de concentração. Sem dúvida, é preciso maior esforço e investimento para se comunicar online: ter equipamento de qualidade, com boa câmera e microfone; buscar fundo-cenário neutro; saber como enquadrar-se, regulando distância e ângulo da câmera do equipamento; vestir-se bem e ter pelo menos nota 5 em expressão oral.

Hoem no espelhoNo sentido de equilibrar os efeitos perversos do excesso de tarefas online, cientistas recomendam que façamos pausas, caminhadas, alongamentos, tenhamos uma boa hidratação e visitas mais frequentes ao banheiro.  A verdade é que precisamos nos manter adaptados à nova realidade atual. Pois, queiramos ou não, vamos continuar a buscar imagens e nos imaginar buscados. Tanto nas telas refletivas, quanto nas virtuais. “Será que eu vou me adaptar?


Nota 1 – Esta crônica escrita complementa o podcast do episódio 35 do Canal Semônica, criação de Nando Cury e produção do podcastmais.com.br

Nota 2 – Pesquisa histórica e musical, texto, voz e canto no podcast por Nando Cury

Nota 3 – Músicas com referências ao tema

É Hoje (Didi Mestrinho).
A minha alegria atravessou o mar. E ancorou na passarela. Fez um desembarque fascinante. No maior show da Terra…Diga, espelho meu. Diga, espelho meu. Se há na avenida alguém mais feliz que eu.

Não vou me adaptar (Nando Reis, Arnaldo Antunes)
Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia…. Eu não vou me adaptar, me adaptar. Eu não tenho mais a cara que eu tinha. No espelho essa cara já não é minha. É que quando eu me toquei achei tão estranho. A minha barba estava deste tamanho. Será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia?


 

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